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O Jardim do Diabo

Novembro 15, 2007 · Deixe um comentário

– Meu marido, o Candó, quer matar o Zarolho. Disse que se ele aparecer em casa, mata ele com um facão. O Zarolho é bandido, mas é do nosso sangue.
- Seu marido está ouvindo o programa, dona Glória?
- Tá.
- E como é o nome dele?
- Candó.
- Olha aí, seu Candó. Filho é filho. Não mate seu filho, seu Candó. Talvez ele seja assim porque não teve o amor que precisava na infância, não é, auditório? Tente ajudá-lo. O Zarolho já tem ficha na polícia, dona Maria?
- Tem.
- Manda ele vir aqui falar comigo.
- Obrigada.
- Abaixa o rádio, dona Maria!

A primeira vez que vi o mar foi numa gravura, num livro da biblioteca do meu pai. Uma gravura escura, o mar negro e revolto, grandes nuvens cinzentas em cima, um veleiro indefeso sobre o dorso de uma onda gigantesca, condenado ao abismo. Eu ainda não sabia ler. Depois vi o mar, vejo-o em fotografias e filmes coloridos, mas sempre que penso no mar é nessa gravura sombria, e na minha imaginação o seu cheiro é o cheiro de livro velho. O livro ainda deve estar por aqui. Fiquei com todos. Moro num pequeno apartamento, sala, quarto e cozinha num prédio barulhento e úmido. Os livros estão empilhados pelo quarto e pela sala, cobertos de mofo e poeira. Ninguém limpa. A Lília levanta a poeira quando passa da porta para o quarto e do quarto para a porta, duas vezes por semana. A sujeira só emigra. A dona Maria não entra na sala. Chega de manhã, dá a última notícia de casa (“Minha irmã tá com escarro verde”, e eu desisto do iogurte) e vai direto para a cozinha ligar o rádio. Eu já tive a grande fome de entender tudo, entende? De olhar bem no olho injetado do mundo e me entender também, mas só o que ficou disso foi um certo enfaro literário e um cérebro entulhado.

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Categorias: Literatura Brasileira
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