Obs.: O texto reproduzido encontra-se na página 27 do livro, tendo em vista que a página treze está antes do início do texto em si, como esclarecido nas regras.
Como raramente havia outros médicos no presídio nessas tardes de ausência da lei, eu era chamado para atestar o óbito, antes do encaminhamento do corpo para a autópsia no instituto Médico-Legal.
A primeira vez que atendi a uma ocorrência desse tipo, haviam trazido o corpo para o chão de um pequeno banheiro, que funcionava como necrotério improvisado, no térreo do Pavilhão 4. O rapaz ensangüentado era magro, tinha os dentes da frente em péssimo estado e vários furos de faca no peito e nas costas. Ao vê-lo, senti um mal-estar físico que procurei disfarçar diante do funcionário junto de mim e da meia dúzia de presos postados à porta: a boca ficou seca, amarga, o coração disparou, e duas garras espremeram minha garganta. Para me acalmar, perguntei ao funcionário como deveria preencher a ficha de encaminhamento, mas estava tão nervoso que nem ouvi a explicação.
Quando cheguei em casa, minha mulher estranhou minha expressão carregada; jantei sem fome e demorei muito para pegar no sono. Nos dias que se seguiram, a figura do corpo imóvel no chão do banheiro surgia nítida quando eu menos esperava. As experiências anteriores com a morte natural dos doentes com câncer não me ajudaram a encarar com isenção profissional o primeiro encontro com quele retrato de selvageria humana.
Infelizmente, essa foi a primeira de muitas verificações de óbitos semelhantes na cadeia; cheguei a atestar três na mesma tarde. A sucessão de casos me ensinou a controlar as reações viscerais e a manter o equilíbrio emocional diante deles, mas não foi capaz de evitar que algumas imagens daquelas mortes ficassem impregnadas em minha memória.
Só não sei explicar por que essas lembranças se restringem a apenas uma fração das dezenas de casos atendidos.
Compre Por um fio, de Drauzio Varella.