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Obs.: O texto reproduzido encontra-se na página 27 do livro, tendo em vista que a página treze está antes do início do texto em si, como esclarecido nas regras.
Como raramente havia outros médicos no presídio nessas tardes de ausência da lei, eu era chamado para atestar o óbito, antes do encaminhamento do corpo para a autópsia no instituto Médico-Legal.
A primeira vez que atendi a uma ocorrência desse tipo, haviam trazido o corpo para o chão de um pequeno banheiro, que funcionava como necrotério improvisado, no térreo do Pavilhão 4. O rapaz ensangüentado era magro, tinha os dentes da frente em péssimo estado e vários furos de faca no peito e nas costas. Ao vê-lo, senti um mal-estar físico que procurei disfarçar diante do funcionário junto de mim e da meia dúzia de presos postados à porta: a boca ficou seca, amarga, o coração disparou, e duas garras espremeram minha garganta. Para me acalmar, perguntei ao funcionário como deveria preencher a ficha de encaminhamento, mas estava tão nervoso que nem ouvi a explicação.
Quando cheguei em casa, minha mulher estranhou minha expressão carregada; jantei sem fome e demorei muito para pegar no sono. Nos dias que se seguiram, a figura do corpo imóvel no chão do banheiro surgia nítida quando eu menos esperava. As experiências anteriores com a morte natural dos doentes com câncer não me ajudaram a encarar com isenção profissional o primeiro encontro com quele retrato de selvageria humana.
Infelizmente, essa foi a primeira de muitas verificações de óbitos semelhantes na cadeia; cheguei a atestar três na mesma tarde. A sucessão de casos me ensinou a controlar as reações viscerais e a manter o equilíbrio emocional diante deles, mas não foi capaz de evitar que algumas imagens daquelas mortes ficassem impregnadas em minha memória.
Só não sei explicar por que essas lembranças se restringem a apenas uma fração das dezenas de casos atendidos.
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Fabiano procurou em vão perceber um toque de chocalho. Avizinhou-se da casa, bateu, tentou forçar a porta. Encontrando a residência, penetrou num cercadinho cheio de plantas mortas, rodeou a tapera, alcançou o terreiro do fundo, viu um barreiro vazio, um bosque de catingueiras murchas, um pé de turco e um prolongamentoda cerca do cural. Trepou-se no mourão do canto, examinou a catinga, onde avultavam as ossadas e o negrume dos urubus. Desceu, empurrou a porta da cozinha. Voltou desanimado, ficou um instante no copiar, fazendo tenção de hospedar ali a família. Mas chegando aos juazeiros, encontrou os meninos adormecidos e não quis acordá-los. Foi apanhar gravetos, trouxe do chiqueiro, das cabras uma braçada de madeira meio roída pelo cupim, arrancou touceiras de macambira, arrumou tudo para a fogueira.
Nesse ponto Baleia arrebitou as orelhas, arregaçou as ventas, sentiu cheiro de preá, farejou um minuto, localizou-os no morro próximo e saiu correndo.
Fabiano segui-a com a vista e espantou-se: ma sombra passava por cima do monte. Tocou o braço da mulher, apontou o céu, ficaram os dois algum tempo agüentando a claridade do sol. Enxugaram as lágrimas, foram agachar-se perto dos filhos, suspirando, conservaram-se encolhidos, temendo que a nuvem se tivesse desfeito, vencida pelo azul terrível, aquele azul que deslumbrava e endoidecia a gente.
Entrava dia e saía dia. As noites cobriam a terra de chofre. A tampa anilada baixava, escurecia, quebrada apenas pelas vermelhidões do poente.
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– Meu marido, o Candó, quer matar o Zarolho. Disse que se ele aparecer em casa, mata ele com um facão. O Zarolho é bandido, mas é do nosso sangue.
- Seu marido está ouvindo o programa, dona Glória?
- Tá.
- E como é o nome dele?
- Candó.
- Olha aí, seu Candó. Filho é filho. Não mate seu filho, seu Candó. Talvez ele seja assim porque não teve o amor que precisava na infância, não é, auditório? Tente ajudá-lo. O Zarolho já tem ficha na polícia, dona Maria?
- Tem.
- Manda ele vir aqui falar comigo.
- Obrigada.
- Abaixa o rádio, dona Maria!
A primeira vez que vi o mar foi numa gravura, num livro da biblioteca do meu pai. Uma gravura escura, o mar negro e revolto, grandes nuvens cinzentas em cima, um veleiro indefeso sobre o dorso de uma onda gigantesca, condenado ao abismo. Eu ainda não sabia ler. Depois vi o mar, vejo-o em fotografias e filmes coloridos, mas sempre que penso no mar é nessa gravura sombria, e na minha imaginação o seu cheiro é o cheiro de livro velho. O livro ainda deve estar por aqui. Fiquei com todos. Moro num pequeno apartamento, sala, quarto e cozinha num prédio barulhento e úmido. Os livros estão empilhados pelo quarto e pela sala, cobertos de mofo e poeira. Ninguém limpa. A Lília levanta a poeira quando passa da porta para o quarto e do quarto para a porta, duas vezes por semana. A sujeira só emigra. A dona Maria não entra na sala. Chega de manhã, dá a última notícia de casa (“Minha irmã tá com escarro verde”, e eu desisto do iogurte) e vai direto para a cozinha ligar o rádio. Eu já tive a grande fome de entender tudo, entende? De olhar bem no olho injetado do mundo e me entender também, mas só o que ficou disso foi um certo enfaro literário e um cérebro entulhado.
Compre O Jardim do Diabo, de Luís Fernando Veríssimo.
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